Dama de preto é um anjo de asas negras, amaldiçoada pela escuridão dos seres das trevas.
Preço pago pelo erro de seus antepassados, por não querer ajudar uma cigana enferma que passava pela região.
Ela nem havia nascido, parece peça do destino,
Mas depois de ser apedrejada a cigana lançou uma maldição sobre o futuro primogênito.
- a criança que virá do fruto do vosso ventre, será uma criança triste, por toda a vida, por todo o sempre. Ela será um anjo de asas negras, dama de preto, e todos temerão a ela. Ela terá seus dias de angustias nos jazidos de morte de alheios e terá uma parte de sua alma faltando. Será uma pessoa que trará aura negra e tensa.
E foi embora.
Quando estava em seu leito de morte, a cigana parou para pensar na desgraça que conduziu a pobre e inocente futura criança e fez seu ultimo pedido as forças que vieram para libertá-la:
- mesmo sabendo que a criança já tem um destino traçado, quero mostrar minha compaixão por tão inocente criatura. Quero que ela seja bela, todos terão medo dela, mas não terão coragem o suficiente para querer agir contra ela. A metade de sua alma que falta, será o amor que ela encontrará, sendo assim, ela se completará e terá o sentimento que todos buscam na vida. Amor... Darei minha alma para que esse pedido seja concretizado.
Passou-se alguns anos, a criança nasceu. Em uma família de pessoas de cabelos louros e olhos azuis, nasce a menina de pele branca e gélida, cabelos pretos e olhos tão negros quanto à noite. Ela cresceu como uma criança normal na forma corpórea, porem, mentalmente, era uma pessoa de outro mundo, outra realidade.
Ela não chorava, não sorria, não tinha expressão, não tinha força física. Era vazia.
As pessoas tinham medo dela. Ela quase não falava, porem, quando falava, era algo que lembrava um dia de enterro ou um dia de céu negro e tempestuoso.
Primeira vez que ela chorou, foi quando foi ao jazido de muitas pessoas.
Lá suas lagrimas corriam sem pensar, sem querer, sem motivos.
Tinha uma angustia enorme, mas gostava desse sentimento.
Talvez o único que conhecia.
Sempre ela ia para o mesmo local, seja de dia, seja de noite.
No meio do local havia uma arvore, onde se sentava e ficava horas e horas com a brisa mexendo seus cabelos negros e secando suas lagrimas com o tempo.
Ela era uma pessoa inocente sem ter chance de aprender os sentimentos bons da vida.
Em um dia, quando estava debaixo da mesma arvore, acabou adormecendo levemente.
Suas mãos brancas e delicadas estavam sobre seu corpo.
O tempo de adormecer foi o suficiente para que o cair da noite chegasse tão leve, mas rápido.
Ao acordar viu-se sendo observada por um rapaz, um jovem que a olhava com ternura.
Com amor.
Ele estava sentado de frente a ela. Devia estar ali por horas.
Ela acordou, olhou para ele, e sentiu o sentimento estranho de medo e ao mesmo tempo de curiosidade. Era algo estranho. Não estava acostumada com aquilo. Porem quis explorar um pouco mais sobre isso.
Ela perguntou:
- quem é você?
Ele disse prontamente e vivamente:
- sou um cigano que estou passando pela região. Vim ao cemitério para visitar o tumulo de minha mãe, e não pude deixar de observar tamanha beleza sua ao dormir.
A garota ficou sem palavras. Nunca tinha recebido elogios na vida. Ela estava mais que estranha agora. Realmente sentiu medo e calor. Ela estava perdida.
Ele percebendo que a menina estava encabulada, resolveu descontrair um pouco a situação.
Levantou-se e disse com olhar para o horizonte:
- onde moras garota? O que fazes aqui sozinha? É perigoso uma jovem e bela sozinha por aí há essas horas.
Andou alguns passos e disse:
- acho que minha consciência não me da escolhas. Acompanharei você até sua casa. Afinal, devo ser cavalheiro com as reais damas. Você deve ser de algum lugar burguês e deve estar pensado que o que estou dizendo são coisas fúteis. Mas acredite, nunca tive um dicionário de boas maneiras de um cavalheiro. Estou apenas tentando ser um alguém para você.
A menina não teve duvidas, sentia um calor crescente em seu peito. Era como se algo estivesse diferente nela. Ela se sentiu viva.
O rapaz estendeu a mão a ela e ela pegou sua mão. Foram juntos até a casa dela. O rapaz falava bastante, conversava para vê-la sorrir. Porem ela não sorria.
Ele subentendeu que ela não estava gostando da situação e resolve perguntar:
- o que houve? Por que estás tão seria?
Ela olhou para ele e disse:
- nada demais. Apenas não sei sorrir.
Ele ficou meio assustado no primeiro segundo, porem sorriu para ela e disse:
- tudo bem. Isso é algo que se aprende com a vida.
O cigano acompanhou até a sua casa, e no outro dia também, e assim por umas duas semanas consecutivas. A garota ia ao cemitério não mais pra chorar a morte dos antepassados, mas para vê-lo. Ela estava apaixonada pelo jovem. Ele não faltou nenhum dia.
Sendo que no ultimo dia ele anunciou que seu acampamento iria sair para ir para outro local distante, e que não poderia vê-la para um longo tempo, talvez não mais nessa vida.
Ela simplesmente respondeu:
- desde que venha, não importa se vou estar nesse ou em outro mundo. Só peço que nunca se esqueça de mim, meu jovem cavalheiro. Esperarei todos os dias nesse mesmo local, debaixo dessa mesma arvore, pelo resto dos meus dias. Afinal, eu te amo minha parte de mim perdida.
O jovem despede-se e vai.
A dama de preto não viveu muitos anos, foi encontrada morta debaixo daquela arvore após tomar uma taça de veneno misturada com sangue retirado do próprio corpo.
O cigano apareceu muitos anos mais tarde, e faz o mesmo que ela. Seu corpo sente o veneno que queima e gela ao mesmo tempo. E ele morre para que em sua libertação, sua alma possa se unir apaixonadamente a dela, formando um só. Uma estrela. Uma luz. Um ponto de amor.

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